domingo, 25 de novembro de 2007

CISTERNAS E FONTES NA EDUCAÇÃO TEOLÓGICA

Li, numa revista de educação, uma analogia feita pelo educador e escritor Rubem Alves - que já foi mais conhecido como teólogo e pastor - entre alguns aforismos do poeta inglês William Blake e a Educação. Aforismos são expressões muito sintéticas, que contém mensagens ou sentido muito profundos e que por isso se tornam máximas, como alguns provérbios da bíblia.
“As cisternas contêm; as fontes transbordam”. Rubem Alves começou por esse aforismo sua analogia. Cisternas são buracos que se fazem na terra para guardar água, escreve ele. São muito úteis nas regiões áridas. A água que a cisterna contém não brota dela. Já as fontes são símbolo de vida, de renovação.
Nessa analogia, o autor pondera que para se ter uma fonte não é preciso cavar, a própria água abre seu caminho. A terra não resiste à pressão da água que quer brotar.
Para alinhavar seu raciocínio, o autor do artigo, lança mão de um outro aforismo de Blake que decifra o primeiro: “O homem que nunca altera suas opiniões é como água parada: gera répteis em sua mente”. A diferença entre a cisterna e a fonte está exatamente aí: a fonte é lugar de águas sempre renovadas, sempre transbordantes, sempre em movimento. Esse ambiente não favorece a proliferação de répteis e larvas indesejáveis.
As metáforas foram usadas para dois tipos de pessoas e de educação. Há pessoas que são cisternas e há pessoas que são fontes, assim como há a uma educação-fonte e uma educação-cisterna. A educação-cisterna se propõe e se contenta em encher o buraco chamado aluno com uma água que não brota dele, estranha a ele; enquanto a educação-fonte quer fazer brotar a fonte escondida nele.
Ao ler esse artigo, não pude deixar de lembrar minhas conversas com colegas mais experientes, tanto professores como pastores também preocupados com a educação teológica que está sendo oferecida aos nossos futuros líderes. Que tipo de educação e que tipo de aluno tem sido produzido nos seminários. Fonte de permanente renovação ou estagnação¿ Fontes ou cisternas¿
Parece haver uma excessiva preocupação com a teologia sistemática sem saber o que fazer com ela, e em que ela pode ajudar os crentes a enfrentarem os dilemas do dia-a-dia. A teologia bíblica tem ocupado um lugar, parece que secundário nas preocupações do candidato a ministro, principalmente daqueles que precisarão passar por um concílio examinador para autenticarem o exercício do seu ministério. Isso deve, talvez, pelo fato dos examinadores também se contentarem a ver um desfile de citações decoradas acerca de tratados teológicos.
Um grande amigo e colega de seminário, Pr. Marco Azevedo, há muitos anos, fez uma comentário a um candidato, em um concílio que nós dois éramos examinadores, que eu nunca mais esqueci: “Há muitas pessoas que conhecem muito bem farinha, ovo, açúcar, óleo, leite, mas não sabem fazer bolo”. O sistema de educação teológica atual favorece esse tipo de memória inútil, cujos efeitos se farão sentir na prática ministerial e na vida dos membros que dependerão do alimento espiritual daqueles que foram alunos-cisternas, produtos de uma educação teologia-cisterna.
Qual é o nosso papel como educadores, quer nas instituições de ensino ou nas igrejas¿ limpar, desobstruir, cuidar das fontes para permitir renovação e transbordamento para outros. Num sistema de educação teologia-cisterna os alunos-cisternas, sempre terão no seu depósito uma quantidade de água nunca superior ao depósito do seu mestre e desse volume nem tudo será aproveitado. Esse ciclo tende a esvaziar cada vez mais a cisterna, o que não acontecerá se tanto a pessoa como a educação forem fontes.
Nossa proposta deve ser a de praticarmos uma educação teológica que favoreça a reflexão quanto à utilidade, a relevância e a aplicabilidade do ensino teológico, bem como o desenvolvimento das potencialidades de cada aluno, despertando nele o que ele tem de melhor para que seja uma fonte renovável de conhecimento.

4 comentários:

Pastor Ronny disse...

PARABÉNS PELO ARTIGO MESTRE

Boi Tata disse...

Muito legal ter uma extensão das suas mensagem aqui.
Para bens pelo comentário sobre o texto da fonte, que ele possa servir de reflexão para seus colegas educadores.

thiago santana franco de azevedo disse...

Esse é o meu Pai-Pai...

Anônimo disse...

Boa Canela ....