sábado, 20 de março de 2010

COISAS DO COTIDIANO

... E QUEM NUNCA ROUBOU ROSAS, ENTÃO, É QUE JAMAIS VAI ME ENTENDER...

Essa é a segunda frase do conto de Clarice Linspector, Cem anos de Perdão.
Nesse conto ela descreve com riquezas de detalhes, um capítulo de sua infância no Recife. Menina pobre, cuja atividade preferida era ir com sua amiguinha a uma rua de casarões imponentes e brincar de ser dona das casas. As brancas eram de uma, as coloridas da outra. Por vezes, até saiam algumas discussões sobre a real cor de determinado palacete e, consequentemente, a quem pertencia. Tudo mergulhado num sonho que parecia tão real no imaginário infantil.
Numa dessas tardes, num dos casarões, quase um castelo, ela avista uma rosa. Vermelha e perfeita. Ela olhava para a rosa e parecia que a rosa também olhava para ela como que querendo pertencer àquela criança.
A menina começou a desejar aquela rosa do fundo do coração e esse desejo se tornou num plano apaixonado de possuí-la. E assim fez. Uma tarde, enquanto sua colega vigiava, ela entrou no jardim e, ferindo-se no espinho, chupando o sangue que escorria pelos dedos, tomou a rosa e a levou. O trajeto de volta até o portão pareceu uma eternidade. Quando ela toma a rosa nas mãos e atravessa a rua, agora em segurança, é tomada de uma paixão e alegria indescritíveis. A rosa era toda dela. Poderia cheirar o seu perfume até desmaiar e olha-la quantas vezes quisesse.
Ela termina o conto dizendo que quem rouba rosas e pitangas que apodreceriam no pé, senão fossem apanhadas, tem cem anos de perdão.
Obviamente a autora não está fazendo uma apologia ao roubo. Nem de longe. É a forma de dizer que ninguém poderá jamais saber o sentimento de alguém, principalmente de uma criança, se nunca passou por situação semelhante.
Quando leio esse conto, penso em coisas espirituais. Penso em como, às vezes, prego com tanta convicção e entusiasmo sobre alegrias da vida cristã e algumas pessoas recebem a mensagem como mais uma informação que deve ser entendida e armazenada. Existem coisas na vida que não se consegue transmitir a emoção pela informação. Algumas verdades bíblicas podem ser pregadas pelo orador mais eloqüente e com os maiores recursos homiléticos que não passarão de informações, até recebidas como verdades, mais sem produzir resultados efetivos.
Dois exemplos bastam para ilustrar o que defendo: Ganhar uma alma para Cristo. Quem nunca viu alguém, visivelmente aprisionado por Satanás, ser liberto pelo poder do evangelho através do seu testemunho, nunca saberá qual o prazer que isso dá. Ver alguém que caminhava a passos largos para o inferno, depois de ser-lhe apresentado as boas novas de salvação, render-se aos pés de Jesus. Quem já passou por essa experiência, experimentou um gozo quase celeste por alguns minutos. Quem nunca ganhou uma alma para Jesus, só sabe teorizar sobre o “Ide” de Jesus, mas sem a sensação dessa recompensa.
Outro exemplo é a contribuição generosa. Não dá para explicar o que se sente quando se doa liberalmente e com generosidade. É uma alegria que parece que se ganhou uma grande fortuna. Mas quem dá murmurando, com mesquinharia, daquilo que sobra, como se fosse uma obrigação, vai ficando cada vez mais pobre de sentimentos e de sensibilidade.
Não dá para explicar como é ganhar uma alma para Jesus. Tem que passar pela experiência. Assim como não dá para garantir felicidade ao contribuir àquele que não o faz com alegria.
Clarice Linspector, já falecida, não pode me impedir de parafrasear seu conto: Quem nunca doou com generosidade e liberalidade não vai entender. Quem nunca ganhou uma alma para Jesus, então, esse é que jamais vai me entender.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

COISAS DO COTIDIANO

IOGURTE OU FERMENTO?

Você sabe fazer bolo? Cada um tem uma receita especial e acaba por ficar conhecido pelo sabor do seu bolo. Se eu mencionar alguns tipos de bolo, você logo saberá quem é a especialista. Se eu falar em bolo de coco, quem te vem à mente? Ou bolo de fubá com erva doce? Ou ainda bolo de iogurte? Bolo de chocolate trufado? E bolo de chocolate com rum?

Fazer bolo é uma arte. O bolo torna qualquer bebida mais nobre: do café à champanhe. Uma festa de casamento não terá graça se não houver o bolo da noiva. Nenhuma criança se contenta com festa de aniversário, se não cantar parabéns em volta do bolo. O bolo é a celebridade da festa. É o bolo que determina que horas vamos embora de uma festa – após cortar o bolo. Se já comemos bastante e não cabe o bolo, não temos vergonha de levar para casa. Eu, sempre que a Sandra não está na festa, peço um pedaço de bolo para ela, para poder comer mais um pedaço em casa. Bolo é maravilhoso.

Quando você vê um bolo, em que você pensa? No bolo, você me responderá. E está certo. Ninguém come um bolo pensando no fermento, na farinha, nos ovos, no óleo ou outro ingrediente qualquer. Pensamos e saboreamos o bolo.

Assim é a vida cristã em comunidade é como um bolo. Um bolo onde cada pessoa é um ingrediente. Alguns têm um sabor até suportável isoladamente. Caso do leite, do iogurte, do açúcar. Outros, no entanto, nem se cogita em saboreá-los individualmente. Nunca soube de ninguém, em sã consciência, que gostasse de comer fermento cru, ou farinha de trigo, ou fubá. Há alguns malucos que bebem ovos crus, mas prefiro não comentar, pois me embrulha o estômago.

A vida Cristã é assim também. Somos ingredientes de um bolo chamado igreja. Isoladamente não somos todos saborosos. Alguns são como iogurte, apreciado separadamente. Outros, contudo, são como fermento. Se não for usado em conjunto com outros ingredientes nunca sairá da despensa. Nunca será alimento, nunca será sobremesa, muito menos o prato principal. Sozinho ele não é ninguém. Ninguém o percebe no armário, ninguém o coloca na mesa do café; nem o usa para enfeite. Um fermento nunca chegará ao status de iogurte.

Mas há uma verdade inquestionável acerca desses dois ingredientes: O iogurte torna um bolo mais saboroso, mas é o fermento que torna uma massa, bolo. Não há bolo sem fermento.

Talvez você, como eu, já tenha se sentido fermento. Não é oferecido às visitas, não é convidado para a mesa de refeição, fica no fundo do armário e só se sente a sua falta quando vai fazer bolo. Anime-se, o bolo só será bolo se você estiver presente.

Deus nos vê assim. Nem todos são admirados pelas pessoas, nem todos estão em evidência. Nem todos são, isoladamente, populares. Alguns, até, causam certa repulsa pelas suas características, mas, se fazem parte da receita do bolo, farão a diferença quando se juntarem a outros.

O bolo é algo saboroso, ainda que seus ingredientes, separadamente não o sejam. Isso não importa, porque fomos chamados para servir na igreja e torná-la o melhor bolo do mundo. A igreja foi colocada por Deus neste lugar para ser o bolo que todos apreciem, mesmo que nem todos os ingredientes, fora do bolo, sejam assim tão saborosos.

Iogurte ou fermento, eu quero é estar no bolo. Posso não ser estrela, mas sou necessário.

Bem vindo ao bolo

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

COISAS DO COTIDIANO

“VIVER POR NADA OU MORRER POR ALGUMA COISA”

Esta frase poderia ser um aforismo de um escritor inglês (que até o fechamento desta edição não tinha conseguido lembrar o nome) especialista nessa forma literária. Foi dita, no entanto, pelo “grande filósofo” Rambo, personagem inverossímil de Silvestre Stalone.

Seus filmes são tão exagerados que a carnificina chega mais perto de comédia pastelão do que drama de guerra. Mas, crítica cinematográfica à parte, o roteiro, pelo menos no Rambo II, III, IV e outros se houver, segue uma linha interessante. O Rambo está sempre no ostracismo, procurando viver como um cidadão pacato num país de quarto mundo, mas surge uma necessidade que o impele a despertar seu instinto soldado guerreiro “made in USA” e agir dando sentido à sua vida.

Quinta feira, enquanto esperava o jantar, eu assisti “Rambo IV”. Neste filme, umas aldeias de indefesos cidadãos estavam sendo dizimadas por um exército genocida, e uns missionários, que foram ajudar os aldeões, foram feitos, também, prisioneiros. O Rambo queria continuar sendo apenas um barqueiro, mas quando viu as pessoas morrendo e os soldados contratados para salva-las querendo desistir diante do poderio do inimigo, não pode fechar os olhos à necessidade de agir. Por isso ele é o Rambo.

Por mais inverossímil que seja o personagem, por mais exageradas que sejam as cenas e, por mais piegas que sejam as frases do herói em questão, no fundo gostaríamos de ser o Rambo, principalmente porque ele sempre salva as pessoas e nunca morre. Ainda que saibamos que ele só adota a filosofia de que não vale a pena viver, covardemente, uma vida segura, mas sem sentido; porque ele sabe que não vai morrer – porque Rambo nunca morre - sentimos uma pontinha de inveja.
No fundo, cada um de nós gostaria de ser um Pastor-Rambo ou um Diácono-Rambo ou um Crente–Rambo. Ser impelido, pela necessidade, a sair do ostracismo e salvar o maior número possível de pessoas aprisionadas por Satanás, mesmo que corra risco de morte.

Sabe o porquê dessa projeção de herói no Rambo? É porque nosso subconsciente sabe que, no evangelho, é uma possibilidade real esse estilo de vida. Aliás, essa filosofia do Rambo é uma paráfrase de Paulo: “...vou para Jerusalém sem saber o que vai me acontecer, exceto o que o Espírito já me antecipou: prisões e tribulações. Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra o ministério que recebi do Senhor Jesus...” (At 20.22 – 24)

A gente ri, mas sabe que o Rambo tem razão. Não vale a pena viver por nada, sem se sensibilizar com o aprisionamento espiritual dos que estão próximos e que vemos todos os dias. Não vale a pena viver uma vida sem propósito, sem utilidade. Parece que nada nos tira da mesmice, do anonimato, do ostracismo. É como se fôssemos tele transportados de casa para a igreja e vice-versa. Não vemos nada no caminho, não sentimos compaixão, nada nos incomoda. Somos como zumbis, alheios à necessidade do mundo. De que vale morrer de velhice com esse estilo de vida?

Olhe para você! Como você tem vivido? Você consegue saber que, no mundo, a cada vez que você inspira e expira, quatro pessoas morrem e vão para o inferno, e não sair do seu estado zunbí? Você consegue olhar para as pessoas do seu bairro, sua escola, seu trabalho, aquele que te dá bom dia, que te vende o pão com um sorriso, sabendo que estão indo para o inferno e continuar como se nada estivesse acontecendo. Isso é viver por nada. Não correr riscos e chegar vivo aos cem anos com esse estilo de vida será vergonhoso.

Desperte o Rambo que há em você! Dê sentido à sua vida. Salve prisioneiros de Satanás. Invada o inferno porque, como no roteiro do Rambo, nosso final já está escrito: As portas do inferno não prevalecerão conta a igreja do Senhor.

Você não precisa morrer por algo (ainda). Basta viver por algo. Dê sentido à sua vida. Viva intensamente a vida cristã. As pessoas salvas do aprisionamento é que dão emoções à vida do crente. Viver cem anos sem essas emoções, não sei se vale a pena.

Fique na Paz
Pr. Sidnei (ainda recruta, mas chega lá)

sábado, 3 de outubro de 2009

PASTORAL - 27 DE SETEMBRO

UM DIA A CASA CAI!
A expressão "a casa caiu" que é uma gíria policial usada para definir quando um bandido é pego, descoberto o seu esquema e não há mais como negar sua culpa, aconteceu literalmente nesta quarta feira em Santo André. Uma casa explodiu mandando outras casas, carros e uma oficina mecânica, também literalmente, para o espaço.

Tudo estava quieto, não se sabe ainda se era apenas uma loja de fogos de artifício ou uma fábrica clandestina com depósito de pólvora e outros explosivos. O fato é que a casinha escondida tornou-se manchete nacional. Imprensa do mundo todo estava representada no local da tragédia. Imagens aéreas mostravam uma área devastada como um cenário de bombardeio.

Depois que a casa caiu descobriu-se que a licença para venda de fogos tinha sido negada e que se realmente fosse um depósito ou lugar de manufatura e manuseio de material explosivo, precisaria haver uma licença do Ministério de Exército, que também não tinha. Agora já se sabe o nome e sobrenome do proprietário e onde mora. Foi publicada sua foto, vasculharam a sua vida e descobriram, também, ele já fora preso por porte de explosivo, mas, por alguma razão, seu processo foi arquivado.

Agora se apresentou à polícia, ironicamente, ainda não como investigado. Sua vida está de cabeça para baixo. Todo mundo de deu o direito de investigar e, quanto mais procuram, mais acham. Eu imagino o sofrimento desse rapaz. Conhecemos bem a sequencia das notícias. Primeiro, apenas testemunha, depois homicídio culposo, as investigação continuam e a promotoria já pensa em processo por dolo eventual e, por fim, homicídio doloso. Logo retorna às primeiras páginas dos jornais. Morreu seu primo, sua empregada, destruiu propriedades de pessoas inocentes e tudo isso vai ficar martelando a sua cabeça.

Sua vida foi exposta quando a casa caiu. Nunca saberíamos da existência desse rapaz, nem dos erros que, eventualmente, estava cometendo se a casa não tivesse caído, mas caiu, aliás, antes de cair, explodiu.
Este fenômeno me faz refletir em quantas atitudes ilícitas as pessoas têm feito no oculto sem que ninguém, sequer, desconfie. Quanta coisa errada não é feita na certeza de que ninguém nunca vai descobrir. Quantos pecados são cometidos por anos a fio e nem a igreja, nem o pastor e nem a família sabem. Mas um dia, um acidente acontece, um erro de cálculo, um excesso de confiança, um vacilo e puff .... a casa cai.

Quando a casa cai a exposição é maior, a vergonha é maior, qualquer um se vê no direito de investigar nossa vida. Todos os nossos segredos são revelados. O mais incrível é que Deus, depois de insistir conosco, no particular, para confessarmos e abandonarmos o pecado, sem que demos ouvido a Ele, permite que nossa casa caia e tudo venha ao conhecimento público para ver se assim, mudemos de atitude.

Quando aplico uma prova na faculdade, eu brinco com os alunos dizendo que não tentem colar e escrevo Números 32.23 no quadro. E se não fizerdes assim, eis que pecaste contra o Senhor: porém sentireis o vosso pecado, quando vos achar.

Antes que isso aconteça, antes que nossa casa caia (ou exploda) vamos nos acertar. Não existe impunidade para Deus. Não existe nada oculto para Deus. E não há criatura alguma escondida diante dEle; antes todas s coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar. (Hb 4.12)

Se existe algo que esteja sendo feito às escondidas na certeza de que nunca será descoberto, lembre-se que aquela casinha, escondida entre muitos prédios, tornou-se manchete no dia em a casa caiu.

Acertemos nossa vida oculta antes que a nossa casa caia.
Fique na Paz
Pr. Sidnei

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

COISAS DO COTIDIANO

NEM TODAS AS RAPOSAS SÃO ENGANADORAS

Quando pensamos em raposas, principalmente as das fábulas, logo nos vem à mente aquele animalzinho que sempre engana alguém com seus argumentos matreiros. Há, no entanto, uma raposa diferente de todas as outras. Uma raposa, cujo diálogo, longe de parecer astuto, passa a impressão de um ser ingênuo, carente, bem intencionado e com um profundo conhecimento do que seja uma amizade genuina. A raposa do livo "O Pequeno Principe".

Fazer uma exegese do diálogo da raposa com o princepezinho bem que poderia ser a ocupação de um sábado à tarde de qualquer igreja (não vamos dizer domingo à noite para não escandalizar). Os detalhes do diálogo são quase como tópicos de uma palestra sobre relacionamentos profundos. (não vamos dizer de um sermão para não escandalizar)

Quando comecei este texto, pensei em destacar as principais falas da raposa para serem usadas com gatilhos para discussão em grupo. Desisti quando percebi que tinha destacado quase todas as falas. Como corro o risco de ter exagerado na minha admiração pelo texto, deixo para o leitor a conclusão do que destacaria para suas reflexões sobre relacionamentos interpessoais genuinos.

(…)- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer “cativar”?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer “cativar”?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços…”
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra…
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor… cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.(…)


Então, como seriam nossas igrejas e comunidades se houvessem mais raposas desse tipo.

Boa leitura de "O Pequeno Príncipe". Eu sei que você não vai resistir

quarta-feira, 3 de junho de 2009

COISAS DO COTIDIANO

Então.... que seja o Arnaldo Jabor

Ja reparou a velocidade com que os textos se multiplicam na Internet? De repente alguém descobre um pérola e já repassa para os amigos, que repassam para outros amigos e assim, em poucos minutos, milhões de pessoas têm nas mãos alguma informação.

Outro dia o Arnaldo Jabor, numa entrevista, disse que desistiu de escrever informando que determinados textos que circulam na Internet em seu nome, não são de sua autoria. Disse ainda que alguns desses textos eram até bons. A maioria, no entanto, era muito ruim.

Outros jornalistas e escritores devem passar pelo mesmo constrangimento. Lembrei-me do Arnaldo Jabor porque outro dia, numa repartição pública, enquanto demorava ser atendido, li e reli várias vezes uma crônica atrbuída a ele por nome "Paciência". Não tenho certeza se foi ele realmente quem ecreveu, mas como eu já encontrei este texto em várias lojas e repartições públicas e, em todas, aparecia seu nome como o autor, vou partir dessa premissa.

É claro que o objetivo da crônica estar em lugar tão visível, com autoria atribuída a um jornalista tão brilhante, é estimular o cliente ou usuário do serviço a considerar a paciência uma grande virtude e, enquanto espera o serviço - que às vezes demora muito - vai se edificando com as palavras do texto, aliás, muito bem escrito fazendo apologia a paciência, a virtude de poucos.

O que eu quero, na verdade, é considerar uma frase no final da crônica. O autor termina com a seguinte afirmação: "Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual, mas seres espirituais passando por uma experiência humana". Me ocorreu o fato de quantos milhões de pessoas leram e se encantaram, como eu, com esta afirmação e quantas outras não tomaram-na como "filosofia de vida".

O intrigante, para mim, não é a beleza plástica da frase, aliás, uma característica que me fez crer que seria realmente de Arnaldo Jabor, mas o fato de a bíblia trazer, em inúmeros textos, a mesma mensagem e as pessoas não se esforçam para divulgá-la. Nunca vi, por exemplo, em uma repartição pública, um cartaz dizendo: “Louco! Esta noite pedirão a tua alma e o que tens preparado para quem será?“ Esta é a frase que Jesus disse na estória do rico que pensou que a vida era só curtir o que ele tinha ganhado honestamente em Lucas 12:20. Ou no caixa de uma loja de grife para jovens, um adesivo com o conselho do sábio Salomão para que eles pensem na sua vida espiritual, pois o espírito não morre quando o coração para de bater. Ele diz: “Lembra-te do teu criador nos dias da tua mocidade..... antes que o corpo volte ao pó de onde veio e o espírito volte a Deus que o deu”. (Eclesiastes 12.1 e 7). E não se trata de reencarnação ou tornar-se um espítito flutuante, porque a bíblia diz que “ao ser humano está ordenado morrer um só vez, vindo depois disso o juízo”. (Hebreus 9:27).

Parece que quando um jornalista da Globo diz, prestamos atenção, enviamos para os amigos, afixamos em lugar visível até tomamos como nossa filosofia de vida. O que o Arnaldo Jabor disse não é mentira, aliás, é a verdade mais verdadeira da existência humana. Só que este pensamento alcança apenas parte das explicações. Quando Arnaldo Jabor diz esta grande verdade, que somos seres espirituais vivendo uma experiência humana, falta nos dizer o porquê, mas a bíblia responde.

Somos espirituais porque fomos feitos à semelhança de Deus que é Espírito.

Vivemos uma experiência humana porque Ele nos criou para sermos a coroa de toda criação. Inteligentes, com capacidade e liberdade de decidir o que queremos. Vivemos uma experiência humana para, nesse tempo de vida, fazermos escolhas que definirão nosso futuro espiritual.

Vivemos uma experiência humana porque, nessa liberdade de escolha que Deus deu ao homem, o homem escolheu afastar-se de Deus e tem encontrado, para a tristeza de Deus, mais prazer no pecado. Essa experiência humana é o tempo que o ser humano tem de voltar-se para Deus e, através de Cristo, sair do seu estado de condenação, para que a sua essência espiritual desfrute eternamente da presença de Deus.

Jesus Cristo passou por uma experiência humana para nos salvar da morte espiritual. "O Verbo se fez carne"(João 1:14) ou "Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único filho para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna". (João 3:16)

Nossa experiência humana é o tempo que Deus nos dá para resolver nossa situação espiritual.
Também acho o Arnaldo Jabor um grande cronista: ele levanta grandes questões. Mas só a bíblia tem as respostas para as maiores dilemas do ser humano, ou como diria Jabor: dos “seres espirituais vivendo uma experiência humana”.

Deus tem procurado, de alguma forma, fazer essas verdades chegarem ao coração do homem. A sociedade materialista rejeita tudo que é espiritual. O pensamento imediatista do ser humano o impede de pensar na eternidade. As preocupações com o corpo o impede de pensar no espírito.
Se, contudo, o ser humano moderno não gosta de ler a bíblia, mas lê Arnaldo Jabor e, com isso, venha pensar na sua espiritualidade, assim seja.
O ser humano tem que parar e pensar na sua existência eterna. Tomar providências para que, na sua experiência humana, tenha oportunidade de considerar sua essência espiritual e volte-se para Deus.
Se for através de um texto de Arnaldo Jabor.... então que seja

quinta-feira, 23 de abril de 2009

COISAS DO COTIDIANO

PIPOCA OU PIRUÁ?
Existem observações que somente algumas mentes privilegiadas fazem. E, depois que as ouvimos, só nos resta perguntar: por que não pensei nisso?
É o caso do Professor Rubem Alves. Seus cometários são sempre uma inspiração para reflexões mais profundas. Elas provocam uma continuidade de pensamento. Eu mesmo já produzi alguns textos que são meras anotações à margem de suas crônicas. Uma delas publiquei neste blog.
Um texto brilhante, atribuído a Rubem Alves, me chegou às mãos. O título, "milho de pipoca". Nada mais simples e cotidiano. Não pude, no entano, deixar de pensar em quantas pessoas do meu convívio orgulham-se de serem duras e imutáveis. Querem ser o que são e não o que Deus sonhou que fossem.
Já ousei, em outras oportunidades, fazer resenha comentada de alguns textos do Professor Rubem Alves. Neste caso, porém, não há o que comentar e não seria prudente resumir o texto sob pena de diminuir seu brilho. Convido-os a ler e refletir
Milho de Pipoca
A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho de pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.
O milho de pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer. Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com gente. As grandes transformaçoes acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosas. Só elas não percebem. Acham que é o seu jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor.
Pode ser o fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder o emprego, ficar pobre. Pode ser o fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão, sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio. Apagar o fogo. Sem fogo, o sofrimento diminui e com isso a possibilidade da grande transformação.
Pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pensa que a sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em is mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: Bum! E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, com que ela mesma nunca havia sonhado.
Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca e macia. Não vão dar alegria a ninguém.
Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
E você o que é? Uma pipoca estourada ou um piruá?